Dália caminhava por entre as
gôndolas do supermercado absorta em seus pensamentos. Como em transe, jogou uma
caixa de bombons no carrinho. Ela odiava doces. Ela não estava realmente ali,
não queria estar ali, encontrava-se em outro lugar, em um espaço atemporal, que
tornava tudo suspenso, impreciso e moroso. Sua respiração era pesada. Seus
movimentos, letárgicos.
Há uma semana, ela conhecera
Paulo enquanto fazia o horário do almoço em um restaurante perto do trabalho.
– Posso me juntar a você? –
Arguiu o então desconhecido.
Ela estava de cabeça baixa, já
comendo. Ergueu os olhos, assustada. Não esperava ninguém. Olhou em volta, não
havia mais lugares realmente.
– Sem problemas, fique à vontade
– fez simplesmente.
Fora Paulo que puxara conversa.
Ele era gentil, calmo e calculista. No começo, Dália estava indiferente, só
queria comer e sair logo dali. Mesmo sentindo a resistência de sua
interlocutora, Paulo avançava e recuava com uma oratória eficiente. Os assuntos
iniciais foram pragmáticos e rasos. Dália não soube explicar, mas sentiu-se confortável
com toda a fluidez do diálogo estabelecido.
Quando os pratos esvaziaram-se
nenhum dos dois levantou. Logo a conversa tomou novos rumos.
– Eu gostaria muito de vê-la
outra vez – soltou Paulo, encarando-a com olhos famintos.
– Eu não posso... – hesitou – Sou
casada – asseverou por fim.
– Todos nós somos nesta época da
vida. Eu mesmo, por exemplo, sou casado com algumas ideias imorais... Eu sempre
tento me divorciar delas, mas elas não me deixam... – disse, sorrindo, sem
mover o olhar daquela linda mulher.
E não houve mais resistência. Com
a guarda totalmente aberta, ela retribuiu o sorriso. Naquele instante, ela ainda
nem desconfiava, mas havia lhe entregado a alma.
Dália era uma bela mulher. Na
altura de seus quarenta e seis anos, ela desbancava muitas jovens. Seu sorriso
e seu olhar, ilusoriamente, transmitiam ingenuidade de moça pura. Seu corpo de
pele alva era delicado e exuberante. Seu cabelo negro era sedoso e esvoaçante.
O efeito estético do todo era encantador. Não ao contrário, havia o mesmo
efeito quando ela se expressava, apesar da taciturnidade (ela preferia,
sabiamente, ouvir mais). Sua perspicácia era visivelmente arrebatadora e
contagiante. Tudo nela funcionava como uma engrenagem metódica e perfeita, que agia
com eficiência e graça, de modo que a sua simples presença causava tremor no
mais forte dos seres.
Paulo, desde o primeiro momento,
atinou para tais encantamentos e qualidades e, vendo uma oportunidade, sem nem
ponderar se era mesmo possível, quis tê-la de qualquer forma. Quando saiu do
restaurante naquele dia, ele não parava de pensar em sua frase final, que
concluía todo aquele primeiro encontro:
– Vemo-nos em dois dias então, no
local e hora que marcamos. Mal posso esperar...
Depois disso, tomaram lados
opostos.
Já em casa, após retornar do
supermercado, Dália olhava para o relógio. O tempo passava de maneira estranha
e não do modo como conhecia. Com mais duas horas, encontraria aquele homem que
havia mexido com a sua racionalidade, com o seu cerne, com a sua vida. Tentava
guardar as mercadorias na dispensa, mas seu corpo tremulava. Ficou parada por
um tempo no corredor que dava para a cozinha. Então se lembrou de que era pior
ficar sem fazer nada, pois a ansiedade era inquietante e até por essa razão é
que fora ao supermercado ocupar seu tempo.
Além do mais, logo o marido chegaria e ela teria que disfarçar toda
aquela agitação angustiante.
À medida que fazia o trabalho
maquinal de organizar as compras, ela lembrou-se do sonho que tivera com Paulo
na noite anterior. Se fechasse os olhos poderia senti-lo ali mesmo, beijando-a
naquele ambiente onírico e fantasioso. E assim o fez. No sonho, ela e Paulo
encaravam-se com um desejo ardente e febril em algum lugar indefinido e irreal.
Paulo não resistiu e puxou-a para si, e antes que pudesse ser dito qualquer
coisa, entre narizes e lábios colados um no outro, ele adentrou em sua boca com
sua língua de serpente e de vez enquanto mordiscava a parte de baixo do lábio
úmido dela. Em meio aquele resvalar de línguas e respirações descompassadas, ela
sentiu que ele a empurrava lentamente para trás até uma espécie de parede
translúcida, como guiando seus passos. Encurralou-a e ia pressionando-a, aos
poucos, em um movimento sincronizado, seu corpo contra o dela. Ela gemeu de
prazer, sem pudor. Ele queria mais. Ela pedia por mais. A respiração ofegante
dela descontrolava-o. Uma energia frenética brotava do ventre de Dália, seus
olhos começaram a revirar e uma irracionalidade animal a fez esquecer-se de
todas e quaisquer regras que tolhiam o seu ser...
Não tardou para que em poucos
minutos, deveras, o marido retornasse do trabalho, conforme o previsto. Ela já
havia terminado de organizar os produtos recém-comprados, agora finalizava o
jantar.
– Como vai, meu amor? – perguntou
o esposo.
E antes que ela pudesse
responder, ele emendou, atropelando a sua própria pergunta:
– Nossa, que dia cansativo! Muito
quente, eu trabalhei muito. Vou tomar um banho frio, estou exausto... Diga-me,
não é hoje que disse que irá ao shopping com suas amigas? – quis saber, já se
dirigindo para o banheiro.
– Sim, daqui a pouco – respondeu
simplesmente. A sua resposta deu de cara com a porta fechada do banheiro.
O coração dela disparou. O marido
havia acreditado na história. Logo sairia e encontraria Paulo. O desconhecido,
o prazer, a fantasia, tudo a aguardava e culminava para um final feliz e
prazeroso. Ela soltou um sorriso desesperado e depois mordeu os lábios. Ela já
havia planejado como seria este dia. Pensara em tudo. Preencheria a manhã e a
parte da tarde com afazeres, para que pudesse controlar a mente e acalmar os
ânimos. Esperaria o marido chegar ao lar, após o trabalho, deixaria que ele
tomasse banho enquanto o jantar era esquentado e depois tomaria o seu banho e
sairia, finalmente, rumo ao seu encontro. Carla e Bruna, suas amigas, seriam o
álibi perfeito, mesmo que elas mesmas não soubessem de nenhuma história de
encontro em shopping. Isso era um detalhe a ser consertado depois. O marido era
desligado e muito ingênuo. O que importava, para que seu objetivo fosse
alcançado, era o desenrolar de métodos práticos em sequência, exatamente o que
já vinha acontecendo até ali.
Quando o marido saiu do banho, ela
correu para tomar o seu lugar e informou-lhe:
– Seu jantar está sobre o fogão.
Tomarei banho agora e sairei correndo, porque estou atrasada.
– Espere – e aproximou-se dela.
Ela congelou.
Ele emendou:
– Não lhe digo isto faz tempo, eu
sei, mas saiba que você é a mulher da minha vida, sempre foi, eu te amo – havia
veracidade e emoção em sua voz. Aplicou um beijo fraterno nela e deu meia
volta.
Ele seguiu para a cozinha. Suas
palavras ficaram.
Naquele mesmo dia à noite, após o
banho, depois de fingir um telefonema ou dois, dissera ao marido que as amigas
haviam desmarcado tudo e ela não teria mais o encontro.
“Era o amor, tudo culpa do amor”,
pensou ela, de madrugada, deitada na cama, mirando o teto escuro, ao lado do
marido que roncava.






